Wednesday, February 21, 2007

O Cão e o Mendigo

Por: Como construir um Ser Vivo, Projeto Escola e Cidadania - Editora do Brasil, 2000

"Apesar de, incontestavelmente, sermos animais, muitos humanos rejeitam essa classificação e aceitam, no máximo, o fato de sermos "como os animais". Isto está errado. Nós somos animais de fato. Diferenciados pela maior inteligência, pela habilidade manual, pela capacidade de podermos exprimir pensamentos e sentimentos por meio da fala, percebemo-nos superiores às outras espécies que coabitam este planeta e nos valemos desse fato para subjugá-las segundo nossa vontade, não respeitando seu direito à vida.
Será que o cão que acompanha o mendigo nas suas andanças pelas ruas, sob sol, frio, chuva e maus-tratos está somente interessado em alimento? Será que o pássaro que não comeu mais e se deixou morrer depois que seu dono faleceu foi vítima de uma terrível coincidência? E a fêmea do urso-polar que passa dois dias ao lado do corpo inerte de seu filhote, com expressão clara de tristeza e desolação, está só obedecendo ao seu instinto de preservação? Que 'instinto de preservação' é esse que impede que o animal vá em busca de abrigo e alimento? Quem nunca parou para observar passarinhos num final de tarde, fazendo as mesmas acrobacias no ar repetidas vezes, semelhantes ao atleta ou à bailarina que repete incansavelmente o mesmo movimento na tentativa de alcançar a perfeição? Qualquer um, com um mínimo de sensibilidade, é capaz de perceber que eles estão apenas brincando, voando pelo simples prazer de voar.
Talvez seja mais fácil acreditar que tudo o que está aí sirva unicamente para nosso desfrute, assim não há crise nem culpa pelos nossos atos. Mas pense um pouco mais a respeito disso tudo quando seu cão recebê-lo com a cauda abanando, quando um gato aninhar-se em seu colo e começar a ronronar, quando o passarinho, mesmo que preso numa gaiola, cantar quando o perceber por perto. Reflita então: é só instinto?"

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